POESIA - De que és feito?

 





De que és feito depende. Só não sei de quê. Porque de resto depende.

No âmago mora uma raiz. Que se ramifica prolongando-se insidiosa ou docemente. Depende. Percorre todos os caminhos vagos, e assim se fazem nascentes todas as alternativas. E a raiz continua lá no cerne, no âmago, no caroço, no centro psicogeométrico de ti. Um ramo aqui, outro para acoli. Crescendo espreguiçados entre o território de que és feito. Construindo estradas.

Depende onde estás. Porque convence-te: também és onde estás ou seja com quem estás ou seja com quem te olhas ou seja em que relação estás ou seja tu parcela do binómio que vive no contexto em que estás ou seja onde de facto estás. Depende, na realidade.

Onde estás és. És sempre onde estás onde quer que estejas. Lembra-te. Há uma fibra particular por entre o cerne da raiz. Talvez ao ladinho do cerne da raiz, depende. Essa fibra que te serpenteia por todo tu como hélice é, depende, o teu caminho original. Depende. Principal. Rota prímeva. Como centro e coluna que se estende para cima e para baixo, inserindo-te brevemente num dos seios da gravidade ela própria. Linha de caminho, vida, de rota ancestral. O teu eixo. Eixo encontrado.

E de que és feito? Perguntas. És feito de carícias tuas e dos outros. São sinais de reconhecimento da tua existência. Como te reconheces te dás. Como te reconhecem te dão. Carícias ditas positivas e negativas. São o sumo, a tese do que és. A síntese és tu. A antítese é a pura indiferença A ausência de tudo e de si próprio. A invisibilidade do ser humano: está aqui, mas não nomeado não existe.

E és feito de subtis fórmulas de amor. Dos ultrasons que povoam as cidades nas cidades que te rodeiam e que voltam boomerang vão e te abraçam. De químicos que norteiam as paixões e seus olhares rutilantes. Depende.

Que gesto acabaste de executar? Este gesto define-te. Revela do que és feito. De aço mecânico ou flora orgânica. Depende. E contudo o aço e a flora convivem dentro de ti diluídas numa comunhão que te atravessa até aos tentáculos da raiz. São raiz. Não filosoficamente ou metaforicamente claro.

Depende da arte com que desdobras caminhos em ti. Vielas prolongadas do passado sempre à espreita sugerindo caminhos rançosos, ruas de aqui e agora paradas até que se movimentem quando entras nelas, prados lá adiante que não consegues tocar mas olhas fixamente e assim te dão sentido e direcção. Depende.

De que és feito? Depende da percentagem de verdade em teu sangue. Quanto maior a percentagem de verdade mais leve e fluido será teu sangue, mais liberdade e menos obstáculos para teu sangue correr, te rodear, te encher. Quanto mais espesso e cheio de escolhos o teu sangue mais comprimidas as vias que te deixam respirar e ser. Mais espessas serão as solas dos teus pés e mais lento será o teu arranque.

De que és feito? O Livro diz barro. Mas depende. Mas se assim for ensopa-te, e molda-te ao caminho que fazes. Não cabes? Molda-te como queiras ou toma outro caminho. A raiz não foge de ti e poderás conhecer-te metro a metro.


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