Viagens! Quantos suspiramos por elas!
Não se trata de turismo, de ser turista. Trata-se de viajar e ser viajante.
Enquanto não fazemos as viagens que sonhamos, podemos viajar com outros que o fizeram e o escrevem. Claro que não é o mesmo, mas mesmo assim se esses forem escritores que nos trazem as impressões que os 5 sentidos captam e as suas impressões, então viajamos com eles.
Nestes 2 livros podemos viajar com os autores pois eles introduzem-nos nos seus sentidos que vão funcionando ao longo dos trajectos, e acompanhamos também as descrições tão reais dos sítios quanto as considerações acerca dos países e em especial acerca dos povos e das gentes com quem vão falando e vivendo.
Não conhecia nada da literatura de viagens e sempre a menosprezei. Tinha lido Sepúlveda - Patagónia Expresso - e pouco mais.
Com Paul Theroux percebi, degustando, o poder brilhante da literatura de viagens: estar lá com ele, vêr o que vê, cheirar o que cheira, ouvir o que ouve: é fantástico o seu poder de nos transportar para a paisagem, o sítio, a relação com outros, e poder olhar os outros que ali vivem e passam. Poder vêr os gestos de todos os protagonistas descritos e o seus movimentos, denunciando as vontades, as intenções e desejos.
Do Cairo à cidade do Cabo, literalmente, de comboio, camioneta, táxi, canoa e carrinhas colectivas. Uma verdadeira aventura!
Quem me conhece sabe do meu fascínio quase obsessivo por África e da minha vontade de lá viver. Nunca o fiz. Talvez possa lá morrer e assim viver depois de ter vivido, quem sabe. Ler este livro foi uma forma de lá ter ido e vivido, tal é o poder transformativo desta literatura.
De facto esta literatura dita de viagens é apenas literatura, de grande qualidade.
Em relação a este livro Viagem por África o meu único lamento fica pelo facto de ser um livro editado no original em 2002 e por isto estar datado. E ainda assim de certeza que no seu essencial e passados 22 anos descreve uma realidade tal como é hoje. O grande valor do livro está na descrição dos seus contactos com as pessoas com quem fala, das suas opiniões sobre o país e região, dos costumes, da política. Dá voz aos nativos.
Agentes da virtude, é a expressão ácida para os "voluntários" das ONGs em África que usa, criticando muito e sendo céptico quanto à eficácia do trabalho das ONGs em África e dos doadores internacionais. Dá muitos exemplos reais e é sempre crítico quanto à corrupção que provoca. Parece-me que quer dizer sempre que em vez de dar o peixe se deve ensinar a pescar. Os apartamentos no meio das terras desérticas e abandonados, as escolas degradando-se sem alunos e sem professores, os alimentos dados às crianças vedando-os aos pais, o vestuário vendido nos mercados quando iam para as pessoas, etc.
Andrew Solomon escreve de forma muito diferente. Chega a um país e contacta elementos do círculo da cultura através doa quais faz um retrato do país, das sua condições políticas, sociais e culturais: Rússia, China, Mongólia, Brasil, etc. Muito interessante na visão que nos proporciona do país, intelectuias, arte, gastronomia, política. E sempre numa busca de razões que contribuam para a eplicação do tema base que investiga - a depressão. Ficamos com visões muito impressivas sobre povos, por exemplo sobre o povo Inuite, esquimós, e sobre o povo Mongol, o povo Chinês e Brasileiro. Como parece que dizia Tom Jobim, viver em Nova Yorke é bom mas uma merda, viver no Rio é uma merda mas é bom! É também um livro datado, 2016, o que se nota por exemplo quanto ao poder na Rússia.
Sem dúvida que vou ler mais Paul Theroux. É literatura, de viagens e sem o ser, pois afinal acabei por saber que é autor de muitos livros conhecidos.
E irei continuar a viajar também assim, conhecendo sítios, pessoas, mentalidades, hábitos, crenças, vícios, paisagens, história, política, simpatias e ódios.
Boa viagem!


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