CAMARADAS:
O meu percurso antifascista activo começou em 1971.
Felizmente a PIDE/DGS não encontrou o meu rasto! E assim pude celebrar em liberdade a revolução de 25 de Abril de 1974, a bela e bem sucedida revolução dos cravos e a Liberdade!
Em 1971 fui escalonado por dever antifascista para presentear com um ramo de flores não envenenado o Presidente do Conselho na altura, Américo Tomás, na sua passagem pela vila de Cortegaça. Claro que a este escalonamento não foi alheia a minha condição antifascista relevante e persistente, para além de frequentar a 4ª Classe da escola de Cortegaça, no Gavinho, e por acaso ter um parentesco próximo ( filho ) com uma professora que lecionava ao lado, nas meninas, a minha mãe.
Nesse mesmo dia da passagem de Américo Tomás por Cortegaça, pela estrada nacional 109,por protesto antifascista não me muni da bata branca com que deveria apresentar-me na escola, como bom e parcimonioso aluno, e portanto as entidades educacionais retiraram ( pediram emprestada) a bata branca a um colega meu - por sinal ainda hoje um antifascista convicto, fidagal e resiliente que não divulgo o nome pois a PIDE/DGS não vá renascer - apenas deixo as suas iniciais para que o próprio o recorde e para memória futura dos combatentes antifascistas: J.J.G. E assim de branco fui com o ramo de flores em mãos em direcção à estrada 109, e não em direcção a Américo Tomás, fazer a vontade expressa a toda a sociedade, e a vontade implícita a minha mãe: entregar o ramo de flores ao Sr. Presidente do Conselho Américo Tomás.
Claro que também ia uma menina com outro ramo de flores para presentear o Sr Presidente. Américo Tomás, pois que é um macho só?, ou uma fêmea só? pois só da conjugação dos dois sexos a Nação avança e teremos mancebos para combater e pôr na ordem os pretos do nosso Império! E assim foi.
Desta menina não reza a história pois era alinhada com o fascismo e acreditada junto da dita PIDE/DGS e portanto fez a entrega do ramo. A prova disto é que entregou orgulhosa e quase em lágrimas o dito ramo de flores ao Sr. Presidente do Conselho!
Quem me dera que me tivessem posto nas mãos uma coroa murtuária envenenada com Polónio 61 ( ou setrá 64?) para lha entregar como boas vindas - más vindas - a esta nossa terra de tradição antifascista!
Enfim: por obstinação militante e lutadora fui para a estrada 109 e por rebeldia e antifascismo inconforsmista fiz questão de me perder de todas as entidades competentes - professores, autarcas e padres - e de não oferecer o ramo de flores ao Sr Presidente do Conselho Américo Tomás. Preferi ficar atrás da sua luxuosa viatura a investigar e admirar as potentes motas dos polícias - leia-se lacaios - do Sr Presidente e seu regime ditaturial e fascista!
Não sei nem há memória do ramo de flores.
Heroicamente consegui reunir-me com a minha família ao final do dia e dormir em casa.
A PIDE/DGS de nada suspeitou. Claro que tive sempre debaixo do meu olho esquerdo o informador, bufo, da PIDE/DGS de Cortegaça, que todos sabiamos quem era e que assim controlei à distância, evitando comportamentos desviantes ou inovadores, interpretando um papel piedoso e patriótico.
O meu segundo acto antifascista concreto, declarado e observável - pois durante vários anos o meu antifascismo foi activo apesar de clandestino - foi precisamente no dia 25 de Abril de 1974! Rejubilei!
Nesta data tinha acabado de fazer no dia 3 de Abril os meus tenros mas convictos 13 anos. Nesta data em que as aulas sofreram uma derivação de horário e conclusão eu já era antifascista! Afinal a reformulaçãpo de horários, matérias e entidades faziam já parte do programa revolucionário e transformador do MFA ( para quem nunca foi antifascista, o Movimento das Forças Armadas, os que fizeram a revolução ).
Nos 2 anos anteriores, 5º e 6º ano tinha estado no Colégio dos Carvalhos, colégio de padres e espíritos do santo, internado, ou seja, só ia a casa sábado e domingo, e todos os outros dias ali vivia e dormia: o paraíso dos diabos! Neste 3º ano, actual 7º ano, estava ali internado por 2 semanas pois os meus pais tinham ido passear 2 semanas num cruzeiro no paquete Funchal e então tinha sido entregue aos padres, os cuidadores mais seguros e morais do planeta!
Claro que não aconteceu por acaso, o meu pai era já uma pessoa esclarecida politicamente, lia o Expresso e era contra a guerra colonial e o estado novo. Novo de quê? Novo apenas por vir a seguir à República.
Pois neste dia todos apresentamos as nossas armas: a favor, contra, em alterantiva, ... a Spínola, ao fim da guerra na Guiné, ao fascismo, à guerra colonial, à opressão, à libertatação do países africanos, à liberdade em Portugal, à liberdade, à liberdade, à democracia e escolha livre,
Neste dia todos eramos democratas e antifascistas. Neste dia todos sabiamos e conheciamos todos os meandros do Estado Novo, Fascismo, e Democracia. Neste dia todos tinhamos opinião sobre. Neste dia todos estavamos conscientes da ditadura, do fascismo, da democracia.
Felizmente em 1978 fui estudar para o Liceu de Espinho, no 10º ano actual, atual.
Aí fui para uma escola que para além de ser apenas composta por rapazes e homens tinha raparigas e mulheres. No momento e idade certa! Que sorte! Tinha estado tantos anos entretanto encarcerado entre rapazes, padres, serviçais e mulheres barbudas!
Liberdade! Criatividade! Autenticidade!
Então no Liceu de Espinho vivi as RGAs ou seja as ruidosas Reuniõe Gerais de Alunos, em que na participação de centenas de alunos, maiorias de alunos. decidiamos procedimentos, prazos e comportamentos consonantes com as nossas aspirações democráticas.
Foi neste período que pela primeira vez revelei fotos e negativos e me iniciei na fotografia, numa perspectiva de aprendizagem de novos saberes.
Foi neste período que me juntei à Juventude Centrista (CDS) para colar cartazes e fazer pinturas nas paredes livremente, ir aos comícios do Freitas do Amaral e do Lucas Pires, e termos uma casa onde nos juntarmos e beber uns copos. E assim, infiltrado no meio reacionário o vigiar discretamente.
Enquanto pintavamos nas paredes da sede do CDS Paz Pão e Liberdade, na parede do outro lado da rua pintavamos o que verdadeiramente acreditavamos: Abaixo a foice e o martelo, Viva o Black and Decker; Abaixo os telhados, a chuva é do povo; Não vote em branco, vote no verde tinto; e outras frases revolucionárias.
Foi logo a seguir a este período e fase que me tornei amigo do maior antifascista e comunista que conheci no meu habitat, genuinamente comunista até ao tutano. Hoje não vou revelar o seu nome mas posso dizer que continua vermelho até aos ossos cinzentos.
Só revelarei as iniciais com o objectivo de ajudar os futuros historiadores a reconstruirem a história e assim terem mais fontes para as suas investigações : J. F. A.
CAMARADAS:
a Liberdade está na rua cada vez mais cerceada pelo dinheiro e portanto há que lutar para a manter viva e saudável.
Viva a Liberdade! Viva o 25 de Abril. Viva!
(Não vou justificar este texto como protesto contra os reacionários de direita!)

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