Em criança quando da escola primária, fiz várias vezes cadernetas de cromos da História de Portugal e do Animais ou bichos do império português, pois lembro-me que por exemplo apareciam o crocodilo ou o macaco. Aqueles que foram crianças antes do 25 de Abril certamente se lembram destes cromos, que compravamos nas mercearias.
Eu comprava na mercearia do Sr Americo que me atendia era um sujeito alto que tinha uma depressão visível na testa por causa de uma acidente qualquer, fazendo um buraco para dentro da testa, que, pelo menos a mim criança, me mantinha em respeito e enigmaticamente assustado. Quando entrava para comprar os cromos lá estavam os velhos na cavaqueira e a beber copos de vinho ou paralelos (copo de vinho com1/3 de água com gás). Esta mercearia era a que ficava mais perto de casa dos meus pais e onde iamos fazer os recados da mãe, buscar 1Kg de arroz, 1 pacote de manteiga, 1Kg de farinha de trigo, 6 pães, 1 kg de cebola ... repetindo a encomenda pelo trajecto até à mercearia e muitas vezez trocando tudo e acabando por levar para casa artigos e quantidades trocadas. Não levava dinheiro pois a conta era apontada no livro de contas da mercearia, um daqueles livros grandes da antiga contabilidade em que todas as família tinham uma entrada.
Esta mercearia ficava junto à casa de uma Sra velha, a Ti Guida, que se encontrava no entroncamento de duas vias numa pequena elevação do terreno onde corria ao longo do muro da casa um fio de água em que cresciam plantas de agrião que a mulher colhia.
Estes cromos em papel fino e só de uma côr, com um lado mais brilhante que o outro, eram levemente gomados para embrulharem um pequeno rebuçado que chupavamos até à dor de barriga. O preço, bem me lembro, era 1/2 tostão 2. Depois do repasto de rebuçados lavava os cromos e colava-os na pequena caderneta retangular com farinha de trigo molhada ou com sabão molhado. Era o tempo das deliciosas sandes de manteiga com açucar ou manteiga com Milo.
Os cromo repetidos trocava-os com os amigos num jogo em que os cromos com a imagem virada ao contrário, para o chão, e percutindo a mão em concha, os que se virassem ficava com eles. Uma caderneta completa da História de Portugal ou dos Bichos dava como prémio uma sensacional bola de futebol em autêntico couro.
Mas ambas as colecções tinham cromos mais difíceis de sair, menos frequentes, com menos tiragem: eram os que chamavamos carimbados, apesar de não terem qualquer carimbo. Na caderneta da História de Portugal eram 2 os carimbados: o D. Afonso Henriques e o Escudo (moeda). Nos Bichos eram o cabrito, o bacalhau e a cobaia. Estes carimbados valiam vários de outros nas trocas.
Tudo isto para declarar este cromo do Sapo como carimbado: sapo grande e gordo, postado na entrada e bem visível, sorridente.
Um verdadeiro porteiro que deixa entrar ou barra acesso a quem não vier bem composto e de camisa, como acontece nestes tempos à entrada de algumas discotecas ou bares da noite, segundo relatos dos meus filhos.
Vamos lá ver se consigo completar a caderneta até à bola de futebol de autêntico couro!

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