UPGRADE - Probabilidades

 




A Nacional 125 tem troços em que a estrada é estrangulada pelo casario do povo, num consentimento vigiado da passagem. Como o desejo estrangulado na metáfora.

Digo isto porque percorrer estes poucos metros de passeios de 30cm exigem atenção redobrada, como passos respeitosos por quem lá vive. E porque estes troços me recordam a minha infância e a pequena secção da 109 na minha terra, em que para entrar e sair na então Glória – jornais, tabacos, vinhos e petiscos – todo o cuidado em fazê-lo não tinha aspas. Tanto sem aspas que nestas fronteiras vizinhas entre a casa e a estrada do mundo, muitos por cá como por todo este país perderam as ilusões de viver, distraídos, incautos, ébrios, e até alguns bem avisados. Nestas fronteiras contíguas tanto importa quem as segue como quem as corre, para a fabricação das tragédias que vemos depois nos jornais e na TV. Certamente que por lá, na Nacional 125 à Luz de Tavira, nestes longos anos, sucederam coisas destas, notícias trágicas de vida e morte…

Neste particular troço da 125 o garrote aperta o alcatrão até à igreja branca de pequenas torres arábicas, com o seu jardim defronte e o corte à direita para o lar da Misericórdia. Vá-se lá tentar explicar a ordem divina que dispõe os espaços dos viventes, pois de explicações óbvias e naturais não carece a intenção divina nem o desejo. E aqui o alívio do garrote é só suficiente para uma inspiração tomada, não digo apressada nem de yoga, apenas o bastante para a pessoa se compor face ao Deus ali naquela igreja.

Entre a igreja e a placa na estrada a leste que anuncia a entrada na freguesia, as 2 faixas de alcatrão são comprimidas por casas de R/C e 1º, e passeios de 30cm. Neste pequeno trajecto de talvez 500m, dum lado e mais do outro estão olhando a estrada e para o povo uns 3 cafés, um minimercado, uma lavandaria (onde fomos originalmente) e mais uma mão de casas comerciais diversas. É num desses cafés que esta história se faz.

Nesse café sem nome, apenas porque não registei, o calor e a luz baixam na mesma proporção em relação ao exterior. Meia dúzia de mesas e respectivas cadeiras e no fundo escuro do rectângulo o balcão à largura de 2/3. O que logo prende a atenção de quem entra é a parede emoldurada a toda a volta, à altura de metro e meio, por bandeirinhas quadradas e hexagonais em papel colorido azul, amarelo, verde, ao longo de um fio que acompanha toda a extensão rectangular do café. Bandeirinhas tão coloridas e frágeis, em papel fino e quebrável, à espera de brisas suaves e outras mais violentas da rua ou de quem por lá passar levantando fúrias e vento. Estas têm todas impressas imagens e caracteres estranhos para mim. Reconheço sobretudo imagens do Buda sentado na posição de meditação, com aquele sorriso nem desmedido nem contido que a palavra compaixão tão bem exprime, como o sorriso que temos quando estamos em completa harmonia a vibrar connosco e o mundo para além de nós.

Este enquadramento é absolutamente dissonante neste café onde entrei para tomar um café em Luz de Tavira. Imediatamente me lembro dos documentários todos que vi ao longo da vida acerca dos Himalaias, Evereste, Nepal, e particularmente da palavra Sherpa, tantas vezes encontrada a propósito do nosso português João Garcia que subiu até ao cume do Evereste sem oxigénio, ultrapassando aqueles montes de pedras repletos de bandeirinhas coloridas um após outro, no trajecto para o teto.

Pois ao balcão lá estava um humano baixo, cara redonda, cabelo, olhos e tez escuros, olhando-me. Pedi um café e ele apontando para a máquina grande Cimbalino disse que esta estava avariada e se podia servir-me um café desta outra, uma daquelas máquinas expresso Pingo Doce. Que sim. Sotaque estranja.

O espanto imprime-se momentaneamente no nosso rosto quando a surpresa vem, e na minha cara ele lá estava, a lutar com a curiosidade que logo após se instalou.

Ao balcão, do meu lado, sentava-se um homem alto, magro, loiro, num banco individual, na penumbra daquele lugar com um pequeno copo de bagaço à frente. Café servido, fala com o sherpa, que sou do Norte, do Porto, que esteve a trabalhar lá perto o ano passado em Vale de Cambra a apanhar frutos pequeninos, mirtilos?, não frutos pequeninos Kiwi sem pêlos, Kiwi bébé?, isso, sim, que ali não há trabalho.

O loiro fala para mim em português mas não percebo, pergunta se falo inglês, um pouco, diz que o seu português é mau e começa no inglês. É alto, magro, pelos seus 65 anos, loiro, com o rosto cheio de pisaduras vermelhas do sangue por lá parado estagnado à espera de se ir. Diz que é Islandês, que está no Algarve há vários anos, que já viveu em Lagos, Silves, Faro, e que a polícia é que o levantou do chão e o levou ao hotel pois tinha bebido de mais e caído, coisas da vida. Foi cavaqueira por mais um naco de tempo.

Qual a probabilidade de se entrar num café em Luz de Tavira, ser atendido por um Nepalês e dar dois dedos de conversa com um Islandês? Probabilidade de 1 para 3 cafés de entrar no café dos estrangeiros sentindo-me eu também estrangeiro vindo do Norte.


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