A mim dá! Ganas de partir a TV aos pontapés com a maior violência possível! A espumar! A arfar! Louco como louco!
Ouvir que vai em 16.000 mortos palestinos entre os quais 7.000 crianças, vêr a destruição dos edifícios todos no chão em escombros, saber que não têm água, vêr operações nos hospitais com luz de telemóvel, saber que este perdeu pai mãe irmãos e filhos, e aquele também, e outro, e outro, ouvir que se deslocam para sul seguindo as recomendações dos carniceiros e depois esses carniceiros bombardearem a sul no campo de refugiados, saber que 3/4 da população está deslocada para nenhures onde ninguem os aceita, ver todos os dias as imagens "sensíveis" ou que "podem chocar espectadores mais sensíveis" de morte, desespero, horror, desamparo, desesperança, e ouvir que esta guerra é em "legítima defesa" - só me dá ganas de partir a TV aos pedaços com a mais extrema violência.
Esta gana de partir a TV é a violência que nasce em mim perante tanta morte e horror e que não posso dirigir para quem está a matar e a matar e matar e fica então por aqui: não parto a TV porque me vai ficar caro, mas esta agressividade vai ter que ser expressa para algum lado.
Aqui.
Após o massacre horrível do Hamas em 7 de Outubro que matou 1.500 israelitas e fez cerca de 300 reféns, acção absolutamente condenável e terrorista, Israel, ou talvez melhor, o governo extremista israelita que estava prestes a cair por corrupção antes de 7 de Outubro, alega "legítima defesa" para exterminar numa carnificina de horror o povo palestino.
Como disse corajosa e acertadamente o Secretário Geral da ONU António Guterres, o ataque do Hamas, absolutamente condenável, não veio do vazio, e não é com exibir estrelas amarelas de David na lapela, como fez o embaixador de Israel na ONU, que se justifica um genocídio à láia do que a estrela amarela simboliza.
Os países que fornecem as armas e apoiam e calam, sobretudo os EUA, tentam mas não fazem o suficiente para acabar com a orgia de sangue em que Israel se banha. A comunicação social ocidental, e pelo menos a portuguesa, dá tempo de emissão às famílias aterradas dos reféns, justamente, mas não dão tempo de antena comparável aos parentes dos palestinos massacrados, mortos e deslocados da sua terra casa e lar.
O horror entra na minha casa todos os dia através da TV. Claro, mudo de canal! Já não suporto tanta morte, horror e injustiça! Como ficar a vêr aquilo? Não posso. Sobretudo sabendo que posso dizer acabem com a morte e a guerra, mas ela não vai acabar! Então mudo de canal. Estou a virar a cara à miséria e morte de irmãos, de gente igual a mim, meus irmãos, pessoas como eu, à humanidade.
E então a agressividade vem. A raiva. Que a culpa gera. A culpa de mudar de canal com o virar costas ao sofrimento dos outros, meus irmãos e não ajudar. Estender a mão.
Não sentem o mesmo ou algo semelhante? Seremos humanos? Poderemos pelo menos berrar e chamar nomes aos carniceiros para que não fiquemos no silêncio dos idiotas e dos ignorantes?
Vem-me à memória o título de um grande livro de um autor italiano judeu sobre o holocausto:
"Se isto é um homem", de Primo Levi.
Não sei se já leram o livro. Eu já, Há alguns anos. Livro super deprimente pois é a narrativa de alguem que esteve num campo de concentração nazi, Auschwitz, apesar de manter uma distância humana e não tratar o tema em desespero.
Porquê? Acho que este título se adequa perfeitamente como pergunta quanto a esta questão da guerra, seja quanto ao Hamas e sobretudo quanto a esta "legítima defesa" israelita:
Se isto é um homem???
A minha resposta é sim. Sim isto é um homem, na sua dimensão agressiva. E contudo é esta faceta humana agressiva e desregrada que a organização humana em sociedade quer prevenir e evitar. Que a democracia, sendo uma forma de organização comunitária para o bem comum, tenta regular. E é este o desígnío da ONU. E que aqueles que não cumprem as regras de convivência e ética civilizacional devam ser ostracizados pelos países democráticos, e por isto não apoiados e marginalizados no seio comunitário mundial. Só que os países democráticos não o fazem.
A solução passa, sempre, pelo diálogo, respeito e convivência mútua e pela solução dos dois estados soberanos, assente na fronteira originária estabelecida nos acordos de há 40 anos ou mais. Não pela dominação. Não pela segregação. De um estado sobre o outro. De um povo sobre o outro.
Então e nós?
Somos Homens?

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