CRÓNICA - Barroso Património Agrícola Mundial VS Minas de Lítio

 


Sabia que a região do Barroso é Património Agrícola Mundial? A única região na Europa assim classificada? Eu não sabia até esta discussão pública da investigação Influenza.

Sistema Agro-Silvo-Pastoril da Região do Barroso  “Sistema Importante do Património Agrícola Mundial” designado a 19 de Abril de 2018 pela Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO).

O futuro da luta da gente do Barroso pela não exploração das minas de lítio nas suas terras ao lado das suas casas será perder.
Já o primeiro ministro veio dizer que nós portugueses estamos fartos de nos lamentarmos de não
termos recursos naturais no nosso país e quando temos não os podemos perder. A UE, e a indústria aumóvel alemâ e francesa, silenciosamente apoiam e salivam pelo lítio português. Nós, europeus,  não temos nenhuma região Património Agrícola Mundial, eles, Portugal,  que são bárbaros, e gastam tudo em mulheres e copos, que nos dêem o lítio que precisamos, a bom preço, e fiquem como nós, sem Património Agrícola Mundial! Depois a gente injecta dinheiro para a recuperação!

Contudo o primeiro ministro parece esquecer que o facto do Barroso ser Património Agrícola Mundial faz também da região um recurso natural, que pode ser rentabilizado e não destruído em prol de um recurso mineral cuja exploração contribuirá para a destruição de um conjunto de recursos humanos, viveres, costumes, raças animais, flora e fauna, pondo em desiquilíbrio o ecossistema global regional. Contra a vontade da população de lá - não é importante a sua vontade?

Pelo que ouço de pessoas que exprimem na minha presença a sua opinião, a exploração do lítio no Barroso é para avançar. A importância económica é muito grande! 
Contudo creio que a maior parte das pessoas não sabe que esta zona é Património Agricola Mundial! 
Pessoalmente fiquei a saber a propósito desta discussão à volta das minas de lítio no contexto do processo Influenza e das ligações ao demissionário ministro João Galamba.

Vejamos os dados das reservas e exploração do lítio no mundo, segundo relatório da Quercos:




Da Quercos:

De acordo com os US Geological Survey, existem no mundo reservas de lítio na ordem dos 15.566.000 toneladas métricas (considerando apenas as reservas que estão ser exploradas). Chile, China, Argentina e Austrália têm as maiores reservas de lítio do mundo, sendo que Portugal tem 60.000 Ton, Brasil 48.000 Ton, Estados Unidos da America 35.000 Ton, e Zimbábue 3.000 Ton. Acrescenta-se ainda que, apesar de ainda não ter começado a explorar lítio, a Bolivia é a que apresenta a maior reserva mundial de lítio, com cerca de 9.000.000 de toneladas métricas.
Neste contexto, torna-se facilmente perceptível que, ao contrário do que o governo português diz, no contexto mundial Portugal não terá qualquer possibilidade de se afirmar como um dos grandes produtores de lítio, nem seque ao nível europeu. Estamos em crer que será também com base nesta clara precessão da real insignificância das reservas de lítio em Portugal à escala mundial, que o governo de Portugal em desespero de causa veio dizer que pretende não apenas ter a exploração de lítio mas também toda a cadeia de valor associada ao lítio, para assim tentar justificar a aberturas de minas de lítio. Também estes argumentos começaram já a cair pela base. Inicialmente queriam instalar a primeira fábrica de baterias da Europa (o que já avançou na Alemanha, onde se encontra o forte da industria automóvel da Europa), e é igualmente pouco provável que consiga convencer alguma multinacional a instalar-se em Portugal para refinação de lítio.


“A OCDE conclui que o crescimento na utilização de materiais, juntamente com as consequências ambientais da extração, transformação e resíduos de materiais, é suscetível de aumentar a pressão sobre as bases de recursos das economias do planeta, e ameaçar os ganhos de bem-estar. Se não se confrontar as implicações em termos de recursos das tecnologias hipocarbónicas, há um risco de que passar os encargos de reduzir as emissões para outras partes da cadeia económica possa simplesmente causar novos problemas ambientais e sociais, como a poluição por metais pesados, a destruição de habitats ou o esgotamento dos recursos.” (pág. 6)


De facto parece que muita gente acha que a exploração do lítio e o benefício monetário é mais importante que o Património Agrícola,  a região do Barroso, a vontade da população, o sistema ecológico, a economia a este sistema associada - a pastorícia, as raças autóctones, o viver da população de lá, o sistema ecológico, o turismo ecológico sustentável, o futuro e a sua sustentabilidade - e assim concordará com a exploração do lítio. 

A lógica é sempre a mesma: venha o dinheiro JÁ! Depois a gente recupera. É a mesma lógica de como lidamos com o planeta: o dinheiro do petróleo, gás e carvão JÁ, depois pensamos nos 1,5º graus que ultrapassamos e não podemos recuperar, e lixou o planeta. Entretanto injectamos mais dinheiro - como no Barroso, para escolas, casas e estradas, trazemos o desenvolvimento e o bem estar!

O Barroso perderá esta luta contra a exploração do lítio nas suas terras. O $ fala mais alto que tudo o resto. Portugal e a UE estão alinhados neste propósito e as populações, a ecologia, o ambiente, o território, que se lixem. A contestação faz parte do processo de intalação e implementação. Faz parte do cronograma. Está prevista. Até ao início da exploração.

Faz-me lembrar a situação das gravuras de Foz Côa e o Requien de Mozart a que fui assistir ao vivo e ao ar livre na encostas do rio Côa contra a intenção do Cavaco de fazer a barragem e submergir as gravuras, em 1995.
Neste caso só uma mobilização nacional e mediática poderá ajudar o Barroso. 
Será que ainda existe poder e vontade de mobilização civil e de cidadania suficiente para pôr em questão este projecto?





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