Há dias no final do concerto do Tó Trips do EXPANDE na Escola de Artes e Ofícios aqui em Ovar encontrei o João Doce que conheço há alguns anos de contexto de trabalho e com quem trabalhei. Ele é percussionista e é parceiro do Tó Trips em concertos e discos.
Dizia-lhe que vivia cá em Ovar há cerca de 2 anos e ele comentou que Ovar não é bem uma cidade que para ele........
Este tipo de reação em relação a Ovar é muito comum entre pessoas que conheço. Sou de Cortegaça e a malta a norte de Ovar parece ter na sua maioria um preconceito ou reserva em relação a Ovar. Desde que me lembro que constato esta reacção.
Estudei no liceu de Espinho, como a maior parte dos meus amigos, e para Ovar vinha a malta a sul de Cortegaça, de Maceda e Arada, a que chamavamos Espanha com superioridade. Achavamos que Ovar era uma terra lá nos confins da obscuridade, uma terra de parolos e vareiros. Hoje sou vareiro orgulhoso e na altura não sabia a verdadeira noção do significado do vareiro. Vareiro para nós eram os pescadores pobres de Cortegaça e Esmoriz, e talvez por isto recusavamos esta identidade, por medo de nos incluirmos neste cesto.
Hoje continuo a ouvir o mesmo tipo de expressão quando digo que vivo em Ovar e adoro, da parte de muita gente. Mas quando vim para Ovar e dizia a algumas pessoas desta bela cidade que vivia no Lamarão a reacção era igual ou parecida: olhavam para mim com aquele olhar de surpresa e nojo por estar num bairro que é conotado com pescadores, pobreza e violência.
Sim vivo em Ovar, no Lamarão. Como em todos os sítios deste nosso mundo há aqui gente de todo o tipo, boa e má, cordial e malcriada. Ainda há dias um habitante da minha rua numa pequena discussão dizia, para me desprezar e tirar razão, que eu era aqui um novato na rua e portanto supostamente não teria os mesmos direitos que ele, que cá vive há muito.
O que me agrada nesta cidade são os seus recantos em que encontramos calma e beleza. Hoje viver numa grande cidade, em que vivi alguns anos, ser-me-ia muito stressante e desagradável. A velhice é assim!, dizem.
Outro dia estava numa sessão de poesia aqui em Ovar, dinamizada pela ainda bem teimosa Alexandra Gondin, e algumas pessoas de Ovar queixavam-se que cá não se ligava à cultura e ninguém aparecia a estas coisas, e que havia pouca iniciativa cultural. É claro que não concordei e tive o prazer de dizer que Ovar tem uma agenda cultural deveras espantosa, em espectáculos de toda a espécie, de música, teatro, dança, literatura, fotografia, tertúlia, etc etc. E que há divulgação de tal. E a preços muito módicos. Pessoalmente circulo numa agenda cultural que inclui Ovar, Estarreja, Paços de Brandão e a academia de música de Espinho e vejo muita coisa de grande qualidade, de todo o tipo, com preços módicos ou grátis, e em diversas ocasiões tenho que escolher entre espectáculos na mesma data.
Só em Ovar e assim num exercício de memória rápido sem ter em conta a altura do ano, lembro-me do EXPANDE, do Festival Literário, do Ovar Jazz, do Festival de Marionetas, da Dança, do dia FESTA em Julho, do concurso e exposição de fotografia dos Amigos do Cáster, do festival de Teatro, dos espetáculos em Agosto no Furadouro, e da programação do CAO e do Museu Júlio Dinis. E devo estar a esquecer algumas iniciativas. Como por exemplo concertos de música barroca nas igrejas na Páscoa e noutras alturas. E o Carnaval, que não costumo acompanhar.
A cultura para mim é muito importante nos meus dias, bem se percebe. Será como o futebol ou as festas para outros. Mas todos temos algumas coisas que nos esbatem a rotina e o trabalho, e completa o nosso estar.
Creio que a maior parte das pessoas quando pensa em Ovar evoca o pão-de-ló, essa delícia objecto do pecado da gula que creio que em confissão será perdoado, e o Carnaval - é a identidade de Ovar, sem dúvida. Mas infelizmente desconhecem aqueles sítios que lhe dão a beleza e mistério que bem a caracterizam também: as casas e os azulejos; as pequenas praças; as igrejas e capelas; o mercado; a ria, a Ribeira, a Moita, e toda a natureza, fauna e flora, a ela associada.
Sou vareiro sim senhor! Orgulhoso.
Está-se bem em Ovar. E foi aqui que Na Cave do Céu nasceu e deu os primeiros acordes. Hoje é a centésima publicação. Venham mais 100!, digo eu.
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