1º Prémio no Concurso Literário Júlio Dinis em Ovar – 2ª Edição Maio de 2023 - Escalão E - Adultos




Aqui vai o texto que escrevi, vencedor do 1º Prémio, no escalão E-Adultos, com o pseudónimo Adriano Pimenta, uma carta a Joaquim Guilherme Coelho, o nome do escritor Júlio Dinis.

Boa leitura.


“Carta a Joaquim Guilherme Coelho” 

Por Adriano Pimenta (Pseudónimo) 

Inspirado nas Cartas de Júlio Dinis 


Caro amigo Joaquim Guilherme 

Junto da entrada da pequena ponte que nos eleva sobre a paisagem que bem conheces e escreves, naquele sítio de sempre, te esperei. O sol já tinha saído do seu pico sobre mim, e inclinava-se para o mar no seu desígnio de deitar e descansar, desígnio dele e de todos nós. É seu mister abrir o crepúsculo e dar depois lugar à noite, por aqui tão estrelada. Mas que digo eu? Poesia é contigo caro amigo, não é minha virtude! 

Passei pelo lugar de tua casa e como sempre não encontrei estacionamento. Nesse largo de rosas perfumadas por estes tempos, e com os parquímetros, é difícil poder parar descansado. Vi à tua porta um cavalo ruço acostado, de bom porte, belas lombadas e pernas robustas (certamente de algum agricultor abastado daqui da ria), e fiquei convencido que atenderias alguém com queixas de maus miasmas e humores e porventura inconvenientes dizeres, como por vezes troças. Não quis interromper-te, então fui eu para esse lugar a que chamam Moita, com esperança que ainda assim para lá te encaminhasses. 

Sentei-me na murada da pequena ponte que faz um pequeno arco para Sul (e para Norte, bem se entenda). Observava a vegetação rasteira, os farrapos de água, as aves que por lá descansam ao final do dia, e como o sol tingia esta paisagem com a cor do mel escuro de urze, que tantas vezes observamos por aqui. Aquela cor de triunfo dourado escurecido pela entrada do crepúsculo violeta que vai apagar todas as euforias do dia. 

Mas tu caro amigo, é que sabes dar nomes, cheiros, cores e formas a todas estas delícias que temos o prazer de partilhar ocasionalmente nestes entardeceres de Ovar. 

Mas ainda por momentos ansiava ouvir o trote do teu cavalo que viesse na minha direção e pudéssemos ficar a assistir o espetáculo glorioso do apagar do dia e acender da noite, como algumas vezes assistimos. 

Agora a paisagem vivia quieta sem ponta de vento, sem rumor do vento nas árvores que fecham este santuário a poente, só se ouviam as aves e via os derradeiros raios do sol penetrarem e refletirem na água com aquela cor de ouro escuro. 

Afinal parece que venho encher a tua ausência com estas descrições tão amadoras, mas ainda assim voluntariosas em te dar a pintura deste ocaso. Já pensava planos para depois do nosso passeio irmos cear por ali perto, procurar pelo sítio da Ribeira desta bela terra algum poiso, que nos enchesse de sardinhas, pimentos e vinho daquele que quase talha a boca. Aquele mesmo sítio onde há 12 anos a nossa Rainha D. Maria II, em Maio de 1852, embarcou com os filhos, marido e comitiva em direção a Aveiro, depois de nos ter visitado por dois dias. Afinal, é bem de dizer, a nossa pequena cidade de Ovar também tinha sido marcada por selo real! 

A tua demora foi tanta que acabaste por não vir. A beleza era tão grande e grandiosa que tive de a emoldurar para futuras vistas. Peguei na minha câmara Nikon, e comecei a registar o sol em declínio, os farrapos de água e as aves neles poisadas, o verde e castanho da vegetação, e até a ruína à direita do caminho e as suas árvores já ousadas de folhas, dando o tom deste lugar, que conheces. 

Como deves estar a pensar esta carta não traz aviso algum, novidade boa ou má, pensamento, aforismo, poesia, só uma recordação deste dia, passada ao papel no teclado do meu HP, acompanhado por um cigarro Chesterfield. Dirás que te faço perder tempo. Mas será a amizade uma falha no tempo, ou um borrão de tinta nas linhas do alinhavar de um romance? Não creio meu amigo. E por isto e pela nossa amizade é que me permito entrar no teu tempo empenhando algum, e distrair-te um pouco do canto do rouxinol que te premeia com o seu canto no laranjal em que repousas e escreves. Banalidades, porventura dirás, mas elas por vezes também são ofertas da amizade a que não devemos virar a cara. 

Para te sossegar posso dizer-te que as minhas noites têm finalmente sido de sono tranquilo e pegado, após me teres receitado essa solução de ópio para as minhas dores, deixando-me dormir. Neste caso muito te agradeço os cuidados. De ti também espero as melhoras que a nossa terra te dará, das suas brisas marítimas que chamamos maresia e ares puros, e do peixe da xávega e verdadeiros legumes que por cá se encontram. 

A minha mulher Isabel Maria, anda atazanando-me a vida porque não se cansa de me gritar que esta minha barba farta quer imitar a tua bela barba. Continuamente lhe digo que não, que é disposição minha para usar barba, ainda que não seja tão escura, aparada e escovada como a tua, pois é de meu gosto dar-lhe um ar mais selvagem de burguês de província. Que a apare e ordene como a tua ao menos! Eu digo-lhe que a tua tem de ser escorreita e ordenada para que um Doutor assim se apresente. Agora eu! Valha-me todos os Santos! Barba de provinciano, com um leve espírito de civilização e cultura, imitando Doutores, e afirmando as minhas convicções liberais. É este o meu cartão de apresentação. 

Tenho ainda a dizer-te que os livros que querias e me falaste, o meu sobrinho no Porto, João Pimenta, se prestou a procurá-los e os encontrou numa livraria perto da zona dos Leões. Ainda esta próxima semana cá os terás. Para o quê desconfio, que para te dar alguma inspiração para as tuas Pupilas ou Morgadinhas. Que bom préstimo te faça. 

No final restou-me pegar no carro estacionado antes da pequena ponte, no larguito, fazer marcha-atrás, e seguir sozinho. Mas tranquilo e devagar para não levantar as asas aos pássaros e poder saborear os últimos raios do ouro. 

Com muita estima e amizade, deste teu amigo Adriano Pimenta. 

Ovar em 31 de Maio deste ano de 1864




Comentários

Enviar um comentário