25 de Junho: domingo: Tânger: cidade geminada com Faro: ambas brancas e mediterrânicas: conhecemos M. há dois dias na estação de Fez: disse que tinha sido abandonada literalmente por uma amiga de Fez que tinha conhecido e com quem tinha convivido em França nos últimos 3 anos: parece que M. não caíra no goto da família da amiga: e para seu espanto também no Gôto da amiga: estava desorientada como um balão cheio levado pelo vento: após a amiga a ter deixado na estação como a um cão que se abandona: abordou-nos como uma ambulância chega ao local de um acidente: falou: algo foi ardendo dentro dela como um círio lento gastando as sombras até a luz se apagar: foi connosco para Meknes e depois para Tânger: tenciona ir a Casá e depois rumar a Marrakech: olhos azuis frágeis e mediana altura: loira: roliça: delicada ou apenas fragilizada: professora de universidade doutorada em química: viajante compulsiva: EUA Indonésia – Bornéu e Java – Europa Tailândia…: de Toulouse: Sallam M.:
sentados no café Haffa o dito cujo que Paul Bowles frequentava até sair nos roteiros turísticos marroquinos: chove: calma quanto baste sobre esta esplanada sobre o atlântico que precipita a alma como uma solução química encarnada: a paisagem tem aquele poder alienável que todas as coisas belas contêm: no topo do precipício sobre o mar: excelente aroma de haxixe por trás de nós: nuvens hipnóticas de haxixe e de chuva:
28 de Junho: comboio de Tânger para Cásá: a música é uma constante em Marrocos: nos comboios nos cafés nos táxis em todo o lado: ouvir a peça Sherazade de Rinsky-Korsakov no rápido em que vamos é por si só um acontecimento algo anacrónico mas consonante contudo: os rápidos em Marrocos são como os rápidos do rio Douro: nas notas do violino esta música exala a típica bruma do incenso: algo árabe e brumoso: melodias ocidentais de Paul Mauriat acompanham a conversa constante das gralhas árabes que nos acompanham no compartimento: oferecem-nos ovos cozidos: djellabas pés nus lenços na cabeça livros árabes que se lêem de trás para a frente e da direita para a esquerda: para nós que lemos da frente para trás e da esquerda para a direita: e mais violinos e violoncelos: mercadorias apartadas dos seus proprietários acondicionadas por debaixo dos bancos sem as orelhas de fora: coisas de mercadores em trânsito entre Ceuta e Casá: putos por debaixo de aves brancas em planos suaves acenando ao comboio com sorrisos brancos:
29 de junho: aeroporto de Lisboa: vindo do estrangeiro: termo alienígena hoje em dia: sentia-me elo da corrente da vida que por lá se estendia até cá: cá sinto-me elo preso em cadeia oxidada e bafienta: elo aberto prestes a sair da cadeia: para dizer verdade estive 15m em Marrocos: como se: um intervalo profusamente colorido e aromático na minha clausura:
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