VIAGENS BARATAS - Marrocos VI (1990)

 






22 Junho: Fez: 2º dia na cidade: mandei abaixo a barba: papei-a: a estranheza não é tanto assim: revela-se ao toque da língua e dos dedos: já a não mandava a baixo há anos: ficaram grandes suíças pois o barbeiro marroquino achou que está na moda:

o vestido linho creme que vestiste faz parte do meu sonho molhado e do meu pesadelo seco: os olhares dos marroquinos tão aflitos percorrendo o teu meu corpo criam as dobras que fazem no teu linho: criam circunvoluções no meu pensamento: agora recatados inclina-te para a frente e abre os lábios com sede de viajante do deserto: a minha sede vai-se com a tua:

será de Fez que levo olhos e nariz cheios: a labiríntica medina as cores os couros os metais as especiarias os tapetes as djellabas passantes incessantes que levam dentro aqueles corpos escuros o discurso do negócio: as ruelas a pequena mesquita nua incrustada numa ruela para turista ver belos azulejos arcadas pátio no meio daquela metrópole e as cisternas: as cisternas vistas e cheiradas a urina: vistas dum terraço aqueles buracos circulares com cores muitas em que curam o couro e o tingem: o cheiro da urina enchendo tudo e colonizando os nossos narizes: sem este cheiro a paisagem seria quase anacrónica: só rude e bela: sem alma: é o cheiro a urina que trás densidade a esta visão:

24 de Junho: sábado em Tânger: estou pousado numa esplanada de um bar em frente ao mar sozinho azul: E e M foram fazer o picadeiro em frente face ao mar: é bom ter este momento finito sozinho sem ter que falar responder népias: apenas o relax de estar sentado sozinho com o mar: numa esplanada bebendo uma privada cerveja: esplanada alta fora da rota da gente e do seu olhar entenda-se: cerveja é pecado: o empregado nada diz mas reprova: sentia já a falta endémica destes tão agradáveis momentos simples que compõem tão bem estes momentos mediterrânicos: compõem as férias: desejo passar estes 3 ou 4 dias em Tânger de forma displicente sem andar permanentemente à procura: da quele monumento mousquée mercado medina e toda essa panóplia que compõe o turismo: os falsos e verdadeiros guias que nos levam pela mão pelos la birintos das medinas numa guerra de preços e discussões: apenas sentar numa esplanada: beber sentado numa esplanada: acender um cigarro aspirar o fumo sentir a mistura explosiva do amargo e do fumo impuro com bafuradas incertas: escrever o bafo da memória de tantos que por cá passaram por tempos longos ou ilongos banhando-se nas areias lânguidas e obscenas olhando o mar com os olhos turvados buscando direções interiores para N.Y. ou Ceuta ou para o monte lá por trás do visionamento que nos vem aos olhos sem esforço: olhar o branco da cal das casas da cidade branca que se prolonga no monte para lá prenha de betão: talvez Espanha: e por uma hora sossegar sossegar: olhar a espuma do comboio de gente que se escorrega pelo picadeiro os carros atarefados de fogo no cu do escape e as belas negras marroquinas amortalhadas em mistério: na frente do areal e do mar: Sallam:

de trás acima

abaixo à frente

uma auréola amarela

anel de açafrão

inebria

da frente à fronte

fico a planar

dentro do meu invólucro

sem climatização

na cabeça

olhos desorbitados

a um metro da carne

escorregando nas cores

sons ocupando-me

aromas pegando à pele

pensamentos

como Band-Aids

no olhar:

Sallam:








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