VIAGENS BARATAS - Marrocos III (1990)

 

                                               Bazar de Marrakech


17 de Junho: acabamos de passar o Settat a alguns kms de Cásá: vamos num comboio directo para Marrackech para visitarmos a cidade e assistirmos a um festival de folclore tradicional nacional: somos acompanhados por Abdul e Amina como aminoácido: a paisagem evoca o Alentejo nesta mesma época: imagem seca amarela de palha um pouco a fugir para as searas de Van Gogh secas e sem corvos:

18 de Junho: Marrakech: 2º dia nesta cidade: hoje à noite assistimos ao último espectáculo de música e folclore marroquino; como em todos os pontos do planeta esperamos mais de meia hora pelos manda-chuva para que o espectáculo começasse: n trupes de todas as regiões do país a apresentarem a sua música dança canto e costumes implícitos no show: numa exibição non-stop de duas horas e meia: cores ritmos dança e costumes: é curioso como numa volta destas se folheia Marrocos de norte a sul este e oeste e como o público maioritariamente marroquino reage diferentemente acompanhando o ritmo da música e dos cantos e em cada aplauso respectivo doseia o seu entusiasmos segundo regras mais ou menos perceptíveis: a excepção natural a esta regra foi o grupo é claro de música e cantares da cidade de Marrakech como cidade anfitriã: a actuação mais longa foi precisamente a do grupo da região do Saara – sul interior de Marrocos – que levou o dobro do tempo médio ou mais na sua actuação o que também sugere de imediato uma associação entre o valor/vivência do tempo mais lento para este povo com história nómada: torna-se clara a relação entre o ritmo de vida a geografia o clima e a forma como contaminam os costumes e claro a música e os cantares: curiosamente este grupo do Saara foi dos menos aplaudidos conjuntamente com um outro grupo do sul de Marrocos e em especial do sul interior: não foi certamente por acaso que isto aconteceu e sem dúvida que existem razões de carácter político por vezes com forte cariz nacionalista que explicam o facto: ex: quase todos os grupos de regiões interiores do país incluíam nos seus adereços espingardas e mais frequentemente punhais e facas acentuando assim o valor da arma na sobrevivência física cultural e territorial de zonas mais recônditas do país e mais agrestes e ao fim e ao cabo menos ligadas pelo seu viver ancestral ao poder tecnocrata de um país com fronteiras para eles fictícias: um outro grupo: o dos berberes: empunhava espadas: ex: a composição dos grupos quanto ao sexo e a forma como espacialmente se distribuíam no espaço cénico: em pares homem-mulher ou em dois grandes grupos sexualmente separados e nitidamente diferenciados: ex: a maior parte das coreografias tinham como duplo tema base o guerreiro que seduz e conquista a mulher dos seus sonhos pelo confronto sedutor com a mulher ou disputando-a com outro guerreiro numa luta de espadas sem tréguas: sai ketchup: ex: entre cerca de 30 grupos só se apresentaram um ou dois grupos liderados por mulheres sendo um deles o de Agadir: estância turística à maneira europeia com longas praias e altos hotéis: ex: as cores dos trajes têm também naturalmente a vêr com as regiões: grossíssimo vestir do norte de Marrocos mais frio e a predominância do branco: e no sul o preto e o azul escuro o que acompanha a pele dos marroquinos pois quanto mais se anda para sul mais negros são e mais próximos da África negra estamos: ex: toda a música é feita à volta de dois instrumentos básicos o tambor e a flauta mais o som das palmas e do bater dos pés no chão: a percussão de África: quanto à música em si pouco há a dizer se não o incontornável som árabe hipnótico cheio de floreados e ritmos repetitivos que transmitem uma frescura e vigor que certamente vêm de cultura e batalhas muito ancestrais:


                                                          Beduíno


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