VIAGENS BARATAS - Marrocos II (1990)

 





15 de Junho: Cásá: 2 horas depois: extra-large: SPECIALE: de Cásá of course: cerveja com prestígio pecaminoso assegurando electricidade estática fica por cá especialmente como pesada canga de bois no meu toucinho maduro ou no meu grôs pescoço porque os urros não saíram com aquela vontade de furacão volteando no ar com força e velocidade:

só entra no bar Abdul: Nádia (ex estudante de biologia na Suíça) como boa ou má muçulmana fica fora no carro protetor aguardando inspeção prévia avalizante até à próxima se Alá o desejar: Abdul não bebe: bebo por ele: falamos francês e inglês numa trança grossa e comprida de muitas cores: usamos gestos para os intervalos não traduzíveis: combinamos algo: ele pensou o sítio e o momento em que nos encontraremos milimetricamente em marroquino: eu em português: ele como bom hospedeiro na senda da boa tradição árabe e eu convidando-o: ficou uma ilusão imaginada de Nádia que só conheceria no dia seguinte:

16 de Junho: em Cásá: batalha para chegar á fala com o Turismo quase naval em alto mar: mapas e brochuras fechados a sete chaves: pede 10 DHR (ditos dhirames) surdina pela papelada em couché que depois dá benévola e paternalmente após recusa firme de dhirames: fala das ruínas e dos palácios em cor de oiro e das mesquitas e dos desertos o chá de menta as altas montanhas com neve em alturas mais próprias do ano e do frio do couscous das praias de ardentes areias também doiradas e das cidades brancas como Cásá de seu nome e tangines de vocação e das cidades reais e Rabat dos cobres e das cores do jasmim e restantes aromas e especiarias e dos camelos da argila dos belos azulejos das palmeiras dos ritmos musicais tão rendilhados e penetrantes dos tapetes berberes e da herança alguma romana e de Ksar-El-Kibir dos três reis que lá morreram em valerosas batalhas entre os três o português sem nome que não sabe mas que para uma nação é o desejado no seu imaginário nacional e fala do Atlântico e do Mediterrâneo fala de pintores e escritores ocidentais famosos que por terras lá foram em busca de inspiração exílio e algo mais como Paul Bowles nos café Haffa de Tanger e de mais algumas coisas: e William S. Burroughs do primeiro capítulo:

é claro que o Paul já por lá não para desde que o seu paradeiro passou a vir em brochuras turísticas que branquelas ocidentais desgarrados de excursões ou solitários viajantes com gosto pelo mar brumoso em baixo no Atlântico debaixo de uma escarpa porca bebendo café de saco fortíssimo entre bafuradas de hax castanho e mole de magnífico aroma e sabor só por lá passam:

antes Youssef cabeleireiro de dammes diplomado lendo inspirações islâmicas na arrazoada e bela escrita árabe: quer levar-nos para casa dele tão prontamente que tão pronto de prontidão que me fez crescer a suspeita num pequeno grão germinado de ser filiado em algum comando argelino: é míope como uma velha toupeira ensimesmada nos seus pensamentos: actualmente trabalha em produtos químicos: espanto e paranóia legítimos: para produtos domésticos: domésticos donde?: químocos?: receio paranóide e novelesco de artefactos bombistas islâmicos: de objectos ideológicos: não nos prenderá o infiel em sua casa em duas cadeiras contíguas com um lenço na boca a cada um para não tugir nem mugir realizando um vídeo doméstico para a CNN para troca de irmãos ou como exemplo e modelo de conversão a seguir por todos os irmãos no mundo?: (novela paranóica roçando mitos exemplos reais e desejos futuros?: a editar à parte:):

Cásá é uma metrópole pouco labiríntica para turista como eu: é uma cidade sem dúvida branca de edifícios a arranharem o céu próximo brancos como fossem puros pelo meio de tanto cacau na pele das gentes: tem praias que se espreguiçam de mesquita a mesquita vigilantes dos poucos veraneantes impudicos: como a Europa envergando djellaba:

provei o meu primeiro couscous prato delicioso no seio de uma família marroquina: família de Abdul: velhos e novos fiéis e infiéis todos à volta de uma mesa baixa em sofás baixos comendo com a mão elaborando pequenas bolas de couscous na palma da mão: a farinha os vegetais a carne: chá de menta: pequenas conversas sem tradução pequenos sorrisos e muitas curiosidades de parte a parte: saudações abanares de cabeça sorrisos: e por fim lavagem das mãos como Pilates em taça servida por tradição por mulheres com hospitalidade: Salam:

perguntei e perguntei, e perguntei: não há Rick’s Café em Cásá: só em Casablanca de Hollywood:

play it again Sam: play one more time:




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