Conheço um
velho novo autónomo
chapéu de outrora
eterno homem
sempre pouquíssimos
raro
gabardina sobre fato antes das botas
barbudo em cinza
pose digna serena de homem
face do despojamento
conheço-o
debaixo do viaduto das máquinas
vi
cozinha almoço na sua
hora
não o conheço
três vezes
conheço
ele vive lá também
ramos articulados amontoados
ordenadamente na espera
do chegado jantar
vive
caga no dióxido de carbono
nos motoristas das máquinas carros
procura no pensamento
gestos de imobilidade solta
tarefas actos
mira o rio
não o conheço
dezenas foram vezes
mais os desejos que arderam
e apagaram
esquecidos atrás
da indiferença
conheço
esse velho tão jovem
também milenar
melhor que a mim
ou julgo
ou julgo
vi esse velho
sem me ver
julgo
nunca vi esse velho parado
caminha determinado
nem lento ou apressado
indo
indo apenas onde não sei
o velho não inveja
o meu pobre carro
e menos os carrões
a minha pobre vida
e menos milhões
não inveja
ponto
julgo
senta-se
na lata
mexe a sopa ou o guizado
com gesto parcimonioso
testa o gosto tapa
dá de comer ao lume
cruza a perna num momento
mexe os sacos
vive o acto
religioso
julgo
o velho
vigia a fímbria da relva
entalada
entre asfalto e cimento
agora
tem cabeça baixa
aguarda encontrar
julgo
este velho que conheço
digo
não é elo de algemas
não não e não
eu que mal me conheço
pobre anel de correias reluzentes
sofro da inveja
sonho relaxar até ao fim
apagar uma pequena e bafienta
cintilação de fancaria
eu pobre desconhecido
não conheço esse velho
os seus olhos
não conheço esse velho
os olhos a alma
nele só um olhar conheço
olhar vigilante e sereno
do homem
sem côr
pois ainda o não conheço
nele se repetem
os homens todos
no princípio
antes
outrora
antes da estupidez
da ignorância
- como é triste a ignorância! –
da cobiça
da inveja
sábio é o homem
bestas os animais
o gado sôfrego e ordeiro
lutando espumando
pisando
ao melhor lugar à manjedoura
esse velho
é sábio homem
um sábio velho
um homem velho
um velho sábio
julgo
sábio porque sabe
que correntes cintilantes
são como longas tranças
não desatam a romper
prendem até ao fim
como amarras do amor.

Escrever, poesia ou prosa, pôr por palavras o que nos vai nos pensamentos, organizar o caos de sentimentos, dúvidas, considerações... sobre os outros e sobre nós. A utilidade primeira da escrita. Para mim. Também para ti? Ou são outros os propósitos?
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