CRÓNICA - Requiem de Mozart dirigido pelo maestro José Atalaia pela suspensão da barragem do Côa em Outubro de 1995

 





Acabei de revêr o fabuloso filme de Milos Forman, Amadeus, sobre a vida de Mozart. Acaba, como seria de esperar, com o Requiem, essa extraordinária obra.

Veio à memória este Requiem na apresentação a que assisti ao vivo, sentado nos pedregulhos das encostas do Côa, contra a barragem que aí pretendiam fazer, submergindo as gravuras rupestres. 

Na altura era primeiro ministro Cavaco Silva, o homem que nunca se enganava e raramente tinha dúvidas, que era a favor da barragem. Felizmente pela mobilização nacional a barragem não foi feita, e as gravuras lá estão, testemunhando um povo que lá viveu e nos precedeu, e permitindo-nos comunicar com esse povo através da obras que lá deixaram.

Foi extraordinária essa mobilização! Imaginem! Um orquestra e um côro no topo de uma enseada, no bordo do rio Côa, a interpretarem o Requiem de Mozart! A logística necessária! E a beleza generosa do acto. E a beleza do espectáculo, ali na borda do rio a música de um Deus! Um momento único! Duvido que hoje fosse possível tal generosidade e voluntariedade num acto semelhante! Na verdade só participei em mais outra situação que mobilizou os portugueses, mas em escala superlativa, que foi o referendo em Timor pela sua autonomia.

Neste tempo tinhamos este primeiro ministro arrogante que nunca se enganava e raramente tinha dúvidas, que mobilizou as forças de segurança reprimindo as manifestações na ponte 25 de Abril com gás lacrimogénio e cassetetes, e que obliterou o direito de feriado numa terça feira de carnaval no país! E que ficou como um Deus por ter feito as autoestradas do país, quando o petróleo estava no mais baixo de sempre, a 30€ o barril, e o dinheiro da Europa começou a entrar. Um Deus! 

Só não tinha sensibilidade para a cultura, o património, as pessoas, e a ecologia! De resto era um super!

Fica o apontamentpo desta aventura no pó das montanhas do Côa, e o privilégio de ter participado na luta de uma batalha meritória. E o privilégio de ter estado num momento único de beleza e justiça.

Que venham mais momentos de afirmação da vontade popular e do bom senso com este é o meu desejo, pois mais do que nunca o necessitamos.


Comentários