CRÓNICA - Carta aos meus filhos ( e a todos os filhos dos 10 aos 100 anos ) - 2012

 




Queridos filhos:

Escrevo esta carta para vos falar de velharias, velhos e velhices. Sei que tudo são coisas que vos não interessam por agora e vos provoca tédio, bocejos ou desatenção, mas por isto vos escrevo na esperança que na vossa bela pequenina cabecinha germine e se expanda uma pergunta muito importante e dirija a vossa atenção para estas coisas enfadonhas: afinal o que é a velhice e a quem importa?

Saibam que de dia para dia, eu como vós e também a vossa mãe, os vossos avós, tios e tias, amigos e professores, adversários do futebol e da natação, os nossos vizinhos cá e além fronteiras e mar, e até o Cristiano Ronaldo, o Michael Fellps e o Justin Bieber, como dizia, a cada dia que passa todos nos tornamos mais velhos mais um dia. E como as galinhas do campo, as poucas que restam, feias e sujas, que são alimentadas um pouco ainda com grãos sólidos de milho e couves e minhocas, e que fazem deliciosas canjas e suculentos churrascos, e os velhos galos que fazem irresistíveis cabidelas e não menos irrecusáveis assados no forno, grão a grão vão enchendo o papo tal como todos nós dia a dia vamos vivendo e rindo e envelhecendo primeiro um dia, depois uma semana, depois um mês, e depois um ano, até termos 10 anos ou 12 anos ou 51 anos.

Estou quase certo que isto para vós será um argumento que entre a fantasia da TV e da PS3 e o chuto na bola ou a habilidade no skate pouco ou nada vos comoverá, ou fará olhar para este dia em que vos escrevo isto, e para o outro mesmo dia em que estarão a ler este texto, como mais um dia glorioso em que podemos amar e rir e brincar e trabalhar. Mesmo assim quero deixar esta semente para que saibam que mais um dia irá passar, e mais um dia envelhecemos, e ainda bem pois é sinal feliz que por cá andamos, dentro e fora das nossas cabeças, remoendo paixões e preocupações, entre o prazer e o sofrimento que para vós é muito parecido com não vos deixar ver TV até tarde, não ir ao MacDonalds todas as semanas, ficarem tristes com uma má nota na escola, ou verem os pais zangados um com o outro.

O sofrimento é uma constante na vida, mas a alegria é muito mais importante. E o amor. Esse sim é importantíssimo no dia em que envelhecemos. E que afinal só envelhecemos porque aqui estamos a jogar à bola, a nadar, a rir, a beijar, a abraçar, a brincar, a trabalhar, e de trombas, todos os dias das semanas e dos meses e dos anos, até que, como acontece às galinhas que fazem canjas tão saborosas, daqui vamos para outra fazer tijolo.

Mas também é verdade que, tal como os galos velhos são os que dão assados dignos dos príncipes, são os mais velhos, quase velharias, que mais viveram e têm mais sabedoria da vida (quase todos, não todos mesmo assim), porque já viveram também mais alegrias, amores, abraços, risos, e também desamores, traições e batalhas, dentro e fora das suas cabeças.

Também por isto as velharias são muito apreciadas, amadas, polidas e respeitadas, e tratadas com todos os cuidados possíveis, porque ensinam os novos a ir para cá e para lá e não ir por lá ou ficar por cá, que é como quem diz, pegam pela mão os noviços, no dia que envelhecem, para que se não percam entre as franjas do tempo, esse bem precioso que todos vão tendo. Uns mais do que outros.

E em jeito de moral final o importante na vida é amar, ser amor, que quer dizer também como na canção, deixar-se amar, para além de tudo o resto. Esta sentença nem é original ou novidade, e desde os princípios dos tempos que alguns o sabem e transmitem. Há outros que andam por aqui e por lá mais distraídos e perdidos e que não o sabem, e acham que o importante é ter, e vivem afadigados e obcecados por juntar muita coisa que no final não lhes servirá para quase nada ou mesmo nada, e que enquanto andam nestes trabalhos vão perdendo esse viver do amor e de amar, ganhando muita coisa e perdendo amor e saúde. Por tudo isto filhos, amar é o miolo da vida e tudo o resto é carcaça e casca, diz-vos um galo velho e rijo, que como vós um dia (espero e desejo) vocês serão, fazendo as canjas suculentas e os assados irrecusáveis da vida, que dão alma e corpo ao nosso viver.


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