Queridos filhos:
Escrevo esta carta para vos falar de velharias, velhos e
velhices. Sei que tudo são coisas que vos não interessam por agora e vos
provoca tédio, bocejos ou desatenção, mas por isto vos escrevo na esperança que
na vossa bela pequenina cabecinha germine e se expanda uma pergunta muito
importante e dirija a vossa atenção para estas coisas enfadonhas: afinal o que
é a velhice e a quem importa?
Saibam que de dia para dia, eu como vós e também a vossa mãe,
os vossos avós, tios e tias, amigos e professores, adversários do futebol e da
natação, os nossos vizinhos cá e além fronteiras e mar, e até o Cristiano
Ronaldo, o Michael Fellps e o Justin Bieber, como dizia, a cada dia que passa
todos nos tornamos mais velhos mais um dia. E como as galinhas do campo, as
poucas que restam, feias e sujas, que são alimentadas um pouco ainda com grãos
sólidos de milho e couves e minhocas, e que fazem deliciosas canjas e
suculentos churrascos, e os velhos galos que fazem irresistíveis cabidelas e
não menos irrecusáveis assados no forno, grão a grão vão enchendo o papo tal
como todos nós dia a dia vamos vivendo e rindo e envelhecendo primeiro um dia,
depois uma semana, depois um mês, e depois um ano, até termos 10 anos ou 12
anos ou 51 anos.
Estou quase certo que isto para vós será um argumento que
entre a fantasia da TV e da PS3 e o chuto na bola ou a habilidade no skate
pouco ou nada vos comoverá, ou fará olhar para este dia em que vos escrevo
isto, e para o outro mesmo dia em que estarão a ler este texto, como mais um dia
glorioso em que podemos amar e rir e brincar e trabalhar. Mesmo assim quero
deixar esta semente para que saibam que mais um dia irá passar, e mais um dia
envelhecemos, e ainda bem pois é sinal feliz que por cá andamos, dentro e fora
das nossas cabeças, remoendo paixões e preocupações, entre o prazer e o
sofrimento que para vós é muito parecido com não vos deixar ver TV até tarde,
não ir ao MacDonalds todas as semanas, ficarem tristes com uma má nota na
escola, ou verem os pais zangados um com o outro.
O sofrimento é uma constante na vida, mas a alegria é muito
mais importante. E o amor. Esse sim é importantíssimo no dia em que
envelhecemos. E que afinal só envelhecemos porque aqui estamos a jogar à bola,
a nadar, a rir, a beijar, a abraçar, a brincar, a trabalhar, e de trombas,
todos os dias das semanas e dos meses e dos anos, até que, como acontece às
galinhas que fazem canjas tão saborosas, daqui vamos para outra fazer tijolo.
Mas também é verdade que, tal como os galos velhos são os que
dão assados dignos dos príncipes, são os mais velhos, quase velharias, que mais
viveram e têm mais sabedoria da vida (quase todos, não todos mesmo assim),
porque já viveram também mais alegrias, amores, abraços, risos, e também
desamores, traições e batalhas, dentro e fora das suas cabeças.
Também por isto as velharias são muito apreciadas, amadas, polidas
e respeitadas, e tratadas com todos os cuidados possíveis, porque ensinam os
novos a ir para cá e para lá e não ir por lá ou ficar por cá, que é como quem
diz, pegam pela mão os noviços, no dia que envelhecem, para que se não percam
entre as franjas do tempo, esse bem precioso que todos vão tendo. Uns mais do
que outros.
E em jeito de moral final o importante na vida é amar, ser
amor, que quer dizer também como na canção, deixar-se amar, para além de tudo o
resto. Esta sentença nem é original ou novidade, e desde os princípios dos
tempos que alguns o sabem e transmitem. Há outros que andam por aqui e por lá
mais distraídos e perdidos e que não o sabem, e acham que o importante é ter, e
vivem afadigados e obcecados por juntar muita coisa que no final não lhes
servirá para quase nada ou mesmo nada, e que enquanto andam nestes trabalhos
vão perdendo esse viver do amor e de amar, ganhando muita coisa e perdendo amor
e saúde. Por tudo isto filhos, amar é o miolo da vida e tudo o resto é carcaça
e casca, diz-vos um galo velho e rijo, que como vós um dia (espero e desejo)
vocês serão, fazendo as canjas suculentas e os assados irrecusáveis da vida,
que dão alma e corpo ao nosso viver.

Que bela mensagem...
ResponderEliminarObrigado, também acho mesmo.
EliminarMuito bom!
ResponderEliminarObrigado pela opinião e comentário.
EliminarE também pelo comentário, que são importantes.
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