LIVROS BONS - O Coração das Trevas , Joseph Conrad










Lendo este livro de Joseph Conrad vou acompanhando o percurso de barco que Marlow, na ficção de Joseph Conrad, vai fazendo na primeira pessoa, e o de Martin Sheen em  Apocalipse Now no filme de Francis Ford Coppola, no objetivo de atingir o território de Kurtz (Marlon Brando no filme). No objectivo de:

de conhecer Kurtz. De compreender Kurtz. De se associar contiguamente ao génio de Kurtz numa paralela geométrica. De conhecer o desconhecido. De compreender um sucesso almejado. De se clonar Kurtz. De apagar a inveja. De sonhar com uma montanha de dinheiro para si Kurtz 2.

Do resto, clarividência, iluminação, consciência, e dos métodos mais ou menos eficientes na lógica de que os meios justificam os fins, abstenho-me.

O horror. O horror.

Esta é a reflexão que no final alguém que se julgou um Deus, sem o ser, faz.

A ambição humana tornada universal pelo próprio narcisismo e sob a assunção de corrigir os males do mundo solidificam-se na ação certa e na ação impiedosa. O que está na calha já não é apenas a justiça da justeza que administro como julgador infalível, mas também a administração da justiça que me vai no julgamento. Mesmo que o abomine! Mesmo que esta justiça sirva os fins certos através de meios errados.

Este desígnio é também o fruto do isolamento. Do narcisismo primevo que é semente do isolamento quando isolado. A tentação de ter a razão absoluta e a administrar é tentadora e militante. E destrutiva e infértil.

E o desígnio de te ter enlevada por mim, meu amor, e desviar-me de tal maneira até ter aos meus pés todos, todos, todos os que não conhecem o meu desígnio e me outorgam os seus caminhos por confiança na minha força e discernimento, foi apenas um horror. Um horror.

Tal caminho torceu o fim tão distorcido que me resta apenas morrer. Para seguir a amar-te sem perguntas e provas.

Uma obra sobre as trevas da alma humana, a escuridão interna no homem, a imensa sapiência advinda da experiência e vida desperdiçada na omnipotência, e também da reflexão isolada do grupo comunitário.

Uma obra admirável, muito bem escrita, e dolorosa de ler, como alguns livros que importam.

Comentários

  1. Penso que nunca li o livro. Lembrar-me-ia, apesar dos muitos livros que já li e de nem todos lembrar. Mas, como referes o desenvolvimento do guião do filme Apocalipse Now ao qual associaste a leitura d,O Coração das Trevas, direi antes alguma coisa sobre este. Só me sobrou O Horror... após a visualização do filme. Saí de lá doente e nunca mais o voltei a ver. Será por isso que não lembro a leitura da obra referida, caso a tenha lido? Há mentes que se protegem...

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  2. Novo comentário... estou a ler O coração das Trevas do Joseph Conrad. E estou a gostar bastante... é, realmente, um daqueles clássicos imprescindíveis. Que escarafuncham a alma humana.

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