CRÓNICA - O isqueiro cor-de-rosa

 

Numa pequena incursão pelo interior a nascente de Ovar, por S. Vicente de Pereira, parei numa bomba de gasolina para comprar um isqueiro que o cigarro descartado há 15m do maço reclamava. Queria um daqueles BIC pequenos que se pode acondicionar dentro do maço junto aos cigarros. Lá pedi. O empregado, um jovem pelos 20 anos, a sorrir matreiramente lá me mostrou um pequeno isqueiro BIC cor de rosa dizendo que era rosa mas era o último isqueiro. O último, a réstia, só podia ser rosa, por ali, região tão ciente da sua masculinidade! O seu sorriso desculpou a venda de tal objecto tão sexualmente conotado, julgou. Eu disse ok. Peguei e paguei.

Acto tão banal e tão cheio de significados, de masculinidade, poder, identificação ou a sua recusa, conotação sexual, sobretudo sexual, de que a toma de um simples isqueiro, e o seu uso consequente, nos identifica como isto ou aquilo, a nossa opção como homem (ou mulher), como hétero ou homo, como pessoa respeitável e aceite ou recusada e ostracizada. Como a cor de um objecto nos torna reféns de estereótipos fazendo de nós isto ou aquilo, concordantes com a comunidade em que vivemos, ou rasgando com elas, e assim sermos estranhos entre conhecidos e amigos!

As cores. Os gestos. Os falares. Os caminhares e andares. As roupas. Os gostos. Os entrelaçares das pernas. As maquilhagens. Os olhares. As posturas.

Os estereótipos. As crenças. Os hábitos. As regras sociais. As conveniências. A integração na comunidade. A pertença. O isolamento. A diferença. A semelhança. O medo.

Sobretudo o medo. O medo que julguem que sou e não sou, que faço de conta mas não sou, O medo de fantasiar com o que não sou e descobrirem. O medo de afinal não ser, e afinal ser. O perigo e horror de não ser entre nós e ser fora de nós. O perigo de ser revelado o meu não ser quando faço ser. O medo de ter a certeza que sou, e não que não sou. O medo. A incerteza.

Contra o medo, sou. Sou afirmativamente que sou. Sou homem, macho, hétero, marialva e tudo, sou tudo menos o contrário do que sou, e nem as suas variantes de arco-íris.

Sou. E para mim o isqueiro que compro é vermelho porque sou benfiquista, ou preto porque não sou da académica, amarelo porque não sou do beira-mar, ou mesmo verde ou azul em desespero (estão a ver!), mas nunca nunca cor-de- rosa.

Simples, quando acender o meu cigarro entre os outros, todos vão olhar para mim e perguntar-se: este gajo é panila? Paneleiro? Homossexual? Gay?

Fiquei a pensar na reflexão de um filho meu que dizia o quanto é incrível que qualquer pessoa, todas as pessoas, mesmo pessoas a quem à partida não damos atenção nem crédito e importância relativamente ao que dizem e fazem, serem passíveis de com os seus actos ou palavras nós sempre retirarmos algo que nos faz pensar, reflectir, equacionar, e fazer olhar para novos caminhos, sentidos e interpretações! Fascinou-me a sua consideração, e encheu-me de orgulho por achar que contribui para esta forma de pensar tão eclética!

Tens toda a razão filho! E essa conclusão foi mesmo atenta e sincrética. O orgulho, meu, aqui está, nesta referência.


Comentários

  1. Um texto interessante, como já o tinha referido. Porque já o tinha lido, o que não interessa para aqui. Um exercício mental de ideias sobre o ser e o não ser, sobre como o parecer dos outros nos pode afetar (ou não), os conceitos e preconceitos. E concluindo com o orgulho de um pai pelo seu filho...e ainda a própria autoestima porque terá contribuído para hoje se poder orgulhar.

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