VIAGENS BARATAS - A cabeça em Mértola

 

 




 A minha cabeça, levada que era pelo corpo, chegou ao mesmo tempo que este último, finalmente, a Mértola. Contudo diga-se que o professor do caminho foi ela.


Os olhos nela encastoados viram uma vila negra, escura e impenetrável ao seu conhecimento: estariam por detrás os mistérios das fés várias que por lá desembarcaram no Guadiana a montante longínquo da sua foz? Mértola, a margem de tantas gentes desde o início de antes da nossa nacionalidade portuguesa, Mértola a vila branca da TV equilibrada na fímbria da terra sobre o rio ao sopé do castelo, vigilante, surpresa súbita na água que o barco sobe o rio após a sua curva protectora, Mértola do Alentejo tão casada com os humores mediterrânicos, esta Mértola, apagava-se, e os olhos que estão na minha cabeça não a viam: a TV ficciona a realidade, pensei dentro da minha cabeça, ou outra coisa complicada outra se passava para a não reconhecer!


A curva do rio, o relevo da espinha, a encosta com o peito virado a sul afoita na sua aparente abertura, a aura milenar que aparece misteriosa e contudo concreta, os segredos dos tantos comerciantes que por lá passaram e comerciaram, tudo parece obliterar a sua concretude. Mas não, é apenas noite quando a minha cabeça levada pelo corpo ali pôs os olhos a vêr sem quase vêr nada no escuro, apenas o escuro, pois não tenho olhos de gato nem sonar de morcego que me oriente nas trevas. Não: era apenas noite e o escuro era breu que os olhos não desfiavam com sucesso.


Amanhã, de manhã, se o corpo dali não se apartar, os olhos dar-me-ão a vêr nas células da cabeça outra vila que não a obscura, mas a dita vila branca, vigiando do alto empoleirada à água diversa da que tantos e tantos navegaram e que agora vejo nova, nova água, novo rio, nova Mértola.

 

 



                                                                                     

 E estas mesmas pedras que piso tão gastas por sandálias romanas, calçado árabe e cristão, carroças levando ânforas com azeite e conservas, alimentos e gentes pintadas e tatuadas, mulheres tapadas, uniformes de romanos, uniformes mouros e outros da Cruz de Santiago, senhores com paramentos e vidas no baptistério cristão, senhores com togas ricas e finas, e senhores ricamente vestidos e com facas curvas em seu cinto, calçada por onde passaram moedas de ouro e prata, armas romanas, árabes e cristâs –pois todas são diversas das outras – arte islâmica ricamente desenhada e pintada em objectos de adorno e de uso de dia a dia, estátuas de deuses em mármore alentejano e romano, nobres cavaleiros da Ordem de Santiago logo que a sua primeira sede ali se instalou, e seus pajens, e também agora estes alentejanos tranquilos, e os pálidos turistas que por cá andam tantos, todas estas lajes pisadas por tantos pés diferentes na côr, tamanho, condição e fé, vistas por os olhos na minha cabeça, fixadas pelas lentes da máquina fotográfica, também as minhas solas as pisam e as alisam em mais uma  carícia ou sevícia que as fixe ao chão e à minha memória dentro da minha cabeça, atravessadas há mais de dois mil anos por tantas cabeças e corpos transumantes. Irão na direcção da mesquita, agora neste tempo igreja, louvar o Deus e rezar por boa fortuna, antes como agora virados para sul?


É nesta vida que se encastoa na perfeição a casa de pasto em que comemos carapaus fritos com açorda na boa tradição alentejana: sabor inconfundível dado por uma frugal receita que de pouco precisa para que o palato saboreie o alho e o coentro, e mais o azeite milenar, no corpo do pão, e a cabeça os identifique. Não será à toa que esta vila museu inclui no tempo de um ano um festival de peixe do rio, bem como já agora um festival islâmico. É a simplicidade que mais ilumina o palato e o coração e torna perplexa a descodificação que a cabeça faz, na procura complexa do sentido para o simples, afinal ali mesmo na entrada dos sentidos e sentires.


Estas histórias estão na história. E que não estivessem ali escritas, este povo que abriu os braços a tanta gente diferente ou por ela foi conquistado, na sua hospitalidade e sabedoria em acolher e integrar-se na diversidade genética assim o prova, provou no passado e continua a provar agora como antes, com o sorriso e as boas maneiras de quem recebe e enriquece sua sorte e multiplica sua fortuna.

   

                              


 

Esta minha cabeça assente no corpo também pisou esta história e lhe acrescentou mais uma pequena história, esta mesma. Bela e milenar Mértola, mais desgaste aos seus caminhos com meus pés quero dar, enquanto passo ouvindo na cabeça os pregões em tantas línguas mortas e viventes.





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