Os olhos nela encastoados viram uma vila negra, escura e
impenetrável ao seu conhecimento: estariam por detrás os mistérios das fés
várias que por lá desembarcaram no Guadiana a montante longínquo da sua foz?
Mértola, a margem de tantas gentes desde o início de antes da nossa nacionalidade
portuguesa, Mértola a vila branca da TV equilibrada na fímbria da terra sobre o
rio ao sopé do castelo, vigilante, surpresa súbita na água que o barco sobe o
rio após a sua curva protectora, Mértola do Alentejo tão casada com os humores
mediterrânicos, esta Mértola, apagava-se, e os olhos que estão na minha cabeça
não a viam: a TV ficciona a realidade, pensei dentro da minha cabeça, ou outra
coisa complicada outra se passava para a não reconhecer!
A curva do rio, o relevo da espinha, a encosta com o peito
virado a sul afoita na sua aparente abertura, a aura milenar que aparece
misteriosa e contudo concreta, os segredos dos tantos comerciantes que por lá
passaram e comerciaram, tudo parece obliterar a sua concretude. Mas não, é
apenas noite quando a minha cabeça levada pelo corpo ali pôs os olhos a vêr sem
quase vêr nada no escuro, apenas o escuro, pois não tenho olhos de gato nem
sonar de morcego que me oriente nas trevas. Não: era apenas noite e o escuro
era breu que os olhos não desfiavam com sucesso.
Amanhã, de manhã, se o corpo dali não se apartar, os olhos
dar-me-ão a vêr nas células da cabeça outra vila que não a obscura, mas a dita
vila branca, vigiando do alto empoleirada à água diversa da que tantos e tantos
navegaram e que agora vejo nova, nova água, novo rio, nova Mértola.
É nesta vida que se encastoa na perfeição a casa de pasto em
que comemos carapaus fritos com açorda na boa tradição alentejana: sabor
inconfundível dado por uma frugal receita que de pouco precisa para que o
palato saboreie o alho e o coentro, e mais o azeite milenar, no corpo do pão, e
a cabeça os identifique. Não será à toa que esta vila museu inclui no tempo de
um ano um festival de peixe do rio, bem como já agora um festival islâmico. É a
simplicidade que mais ilumina o palato e o coração e torna perplexa a
descodificação que a cabeça faz, na procura complexa do sentido para o simples,
afinal ali mesmo na entrada dos sentidos e sentires.
Estas histórias estão na história. E que não estivessem ali
escritas, este povo que abriu os braços a tanta gente diferente ou por ela foi
conquistado, na sua hospitalidade e sabedoria em acolher e integrar-se na
diversidade genética assim o prova, provou no passado e continua a provar agora
como antes, com o sorriso e as boas maneiras de quem recebe e enriquece sua
sorte e multiplica sua fortuna.
Esta minha cabeça assente no corpo também pisou esta história
e lhe acrescentou mais uma pequena história, esta mesma. Bela e milenar
Mértola, mais desgaste aos seus caminhos com meus pés quero dar, enquanto passo
ouvindo na cabeça os pregões em tantas línguas mortas e viventes.



Mértola bela branca brava !
ResponderEliminarTenho de lá voltar , está visto
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